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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Das piadas que aceitamos

Um texto sobre sair do armário para 
um grupo de amigos héteros.


    Hoje assisti um filme curtinho, se chama "4th man out" (trailer), e é sobre um rapaz que sai do armário para seus melhores três amigos, todos héteros. A história foca em como sair do armário pode mudar as relações entre amigos, princpalmente quando eles não tiveram muito contato com homens gays na vida e ficam sem saber como agir, pois a masculinidade é frágil e ser aceptivo demais pode manchar a reputação perante aos outros membros do grupo de amigos. Para preservar a amizade, eles precisam de muito esforço e boa vontade para superar toda aquela awkwardness.
    Isso me lembrou uma situação que aconteceu comigo. Outros três amigos que fizeram elétrica comigo em BH também foram para os EUA, mas ficaram em cidades diferentes. Um em Boston, um em Chicago e outro no interior do estado de NY. Eles eram muito próximos entre si durante a graduação em BH, saíam juntos, e já eram íntimos, enquanto eu era bastante afastado. As circusntâncias nos trouxeram mais próximos, pois desde o processo seletivo para o mestrado nós tínhamos um grupo no zapzap e Facebook, e passar pelos mesmos problemas ajudou a criar um suporte e aumentar a amizade. Mesmo assim, nunca me senti seguro ou íntimo o suficiente para contá-los sobre minha sexualidade, e fui levando.
    Apesar de termos morado em cidades distantes uma das outras, a vantagem é que quando viajamos para nos reunir e conhecer outras cidades, não teríamos que pagar hotel. E saímos muito, e bebemos muito, e por beber muito eu nunca me importei de interagir com mulheres, pois nesses cenários já não me importo com o sexo da pessoa. É como se eu "virasse" hétero quando bebo, e isso contribuiu para manter minha sexualidade fora da atenção de todos. Não que eu estivesse buscando discrição, pois já estou fora do armário para minha família, mas enfim.

    Eles são héteros "de raíz", e acho essa descrição mais do que suficiente para explicar o que quero dizer. Caso exista margem para ambiguidade, me refiro àquele comportamento hétero escandaloso, escrachado e vulgar comum na cultura hétera, por mais generalista que isto soe. Não existe limite para piada entre eles: falam de perereca frequentemente e as piadas incluem um amplo espectro de preconceitos. É um humor bastante peculiar e politicamente incorreto mas, na nossa intimidade, é aceitável, pois entendemos nossos próprios transtornos. Nosso eu público é muito mais polido e contido do que nosso eu íntimo, não é mesmo? 
    No verão de 2015 decidimos viajar pelo Canadá por algumas semanas, fazendo uma car trip pelo leste para passarmos pelo máximo de cidades por um preço acessível. No começo da nossa viagem, eles estavam com brincadeiras de ser gay, como por exemplo "nossa, que vontade de levar uma dedada no cú". E eu também entrei na brincadeira, até que um dia eu fiz uma brincadeira tão pesada que eles começaram a me questionar. 
"Henrique, agora é sério... vc é gay, cara?"
    Depois de alguma insistência, eu confirmei a pergunta. Isso aconteceu na primeira semana da nossa viagem que duraria um mês. Se as coisas ficassem chatas, eu ainda teria que ficar na companhia deles por mais três semanas.
Felizmente, com a benção da deusa, eles reagiram bem!

    Mesmo depois de termos ido numa praia nudista, o que virou motivo de piada, eles não se importaram e as piadas continuaram, porém de forma mais focada. Por exemplo, diziam que a praia nudista foi minha ideia para vê-los pelados, ou depois diziam que não queriam beber refrigerante no mesmo copo que eu para não pegar aids. É pesado, realmente, mas naquelas situações eu achava muito engraçado e não me ofendia. 
    Eu ter saído do armário para eles foi de grande proveito. Além de poder beijar na frente deles, além deles entenderem melhor como eu penso e meus motivos para não querer ir a certos lugares, eles me ajudaram a conhecer um garoto muito fofo.
    Ficamos num hostel na Gay Village de Montreal, e lá saimos numa boate gay um dia. Saindo da festa, um dos meninos avistou um cara sentado sozinho mexendo no celular. Meu amigo chegou perto e o abordou, dizendo"Ei, você é gay? Eu tenho um amigo para te apresentar!". E lá fui eu.
    Como eles estavam indo embora, eu não pude me demorar e apenas tive tempo para pedir desculpas pelo comportamento do meu amigo bêbabdo e o adicionei no Facebook. Ao me despedir, eu fui para um aperto de mão e ele me beijou! Foi tão inesperado, e eu fiquei tão feliz com aquilo, tão romantiquinho e bonitinho, que quase me derreti alí. Nos reencontramos alguns meses depois quando ele visitou Nova York e eu pude conhecê-lo melhor. Ele é uma ótima pessoa, maravilhosa por dentro e por fora, e faz trabalhos sociais com homens que foram abusados sexualmente quando criança. 
    Apesar das piadas, eu sinto que posso ser autêntico com eles. De qualquer forma, agora no Brasil, creio que vamos nos distanciar ou nos ver com muito menos frequência, pois todos também moramos em cidades diferentes aqui, e não há tanta urgência, motivos ou dinheiro para viajar para outras cidades por aqui.
    Enfim. Vocês aceitariam que seus amigos brincassem que você tem aids, ou que você quer destruir famílias, ou que você não dorme abraçadinho depois do sexo porque gays não amam? Estes são exemplos das piadas que enduro.
Um grande abç,
Henrique.

P.S.: A brincadeira que fiz foi sobre roommates de um deles. O tópico era quem era mais gostoso, e eu disse "eu acho tal pessoa mais gostosa, mas tem cara de que mete fofo. O outro tem cara de que mete forte". Daí eles desconfiaram :)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Projetos Mãos Dadas - Existir

Relatei pra vocês, uns dois ou três post atrás, sobre a situação constrangedora que passei com meu namorado, voltando do cinema aqui em Niterói. Por mais que eu negue, aquele fato mexeu realmente comigo e com meu relacionamento e eu, mesmo já tendo sido vítima de homofobia, me vi numa encruzilhada: ser ou não ser quem, realmente, sou.

Conversando com meu namorado, percebi que existia mais coisas naquela situação do que pudemos imaginar. Nós, jovens, gays e metropolitanos acabamos de ser vítimas de uma "homofobia velada". Afinal, aqueles olhares não nos devoravam por curiosidade ou espanto do novo. Era ameça.

Bem, partindo de Lacan " o que você vai fazer com o que fizeram de você", resolvi fazer algo com "isso". E fiz, aliás, fizemos. Eu e meu namorado criamos o Projeto Mãos Dadas que quer dar visibilidade e representatividade aos relacionamentos gays do Rio, do Brasil e do Mundo! Assim como nós, descobrimos que outros casais e pessoas já se "esconderam" no arquétipo normativo para existir, para não ser agredido, para se manter vivo. E, quando nos omitimos de nós mesmos, perdemos a essência de quem realmente somos e isso é uma violação a nós mesmos.

Por isso, quero convidar você a curtir e compartilhar com a gente sua resistência ao existir como gay. Lá na page tem todas as informações para você enviar sua foto, seu texto e seu vídeo para que mais e mais homossexuais tenham força e coragem para sair dos seus armários e conquistar o mundo.

Vem com a gente, de mãos dadas!

https://www.facebook.com/coletivomaosdadas/


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Um comentário

Fico tentando a ter empatia com o Jean pelo histórico de retórica facista do Jair que todos já conhecem, mas também prezo pelo respeito e parcimônia que devem existir para que o debate político seja produtivo. Por isso, deploro sua atitude mas sigo convicto de que as palavras que saíram da boca do Jair ao longo desses anos causam muito mais danos do que uma cuspida na cara.
-Henrique.
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