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sábado, 22 de abril de 2017

Um texto ocasional

Um texto para atualizações, 
sobre meu primeiro relacionamento que durou
e uma tentativa de voltar a escrever

    Essa história de escrever um texto por ano está chata, mas pelo padrão que percebi, só tenho retornado ao blog para fazer reflexões quando estou para baixo. Então, ainda bem que não tenho escrito frequentemente.
    Senhores, estou vivo, como vocês estão?
    Eu estou bem. 
    Creio que estou em mais um ponto de inflexão da vida claramente identificado.
    Sinto mais do que nunca que as pequenas decisões que tenho tomado nos últimos meses poderão moldar todo o meu futuro. 
    O que tem se passado comigo? Bom, em junho fará um ano do meu retorno ao Brasil. Como voltei no meio da crise e minha experiência corporativa é nula, não consegui encontrar emprego e fiquei tentando concursos por 6 meses até perder a paciência e parar para reavaliar meus planos.
    No fundo do poço, minha prima, que sempre foi um anjo na minha vida, me indicou para o professor de inglês dela e passei a fazer aulas de treinamento para contratação. Quando fomos discutir o pagamento, fiquei impactado com tamanha proposta esdrúxula. Fiz uma contraproposta que foi recusada, e de raiva e orgulho aluguei meu próprio local para dar minhas aulas com o que eu havia aprendido durante os dias de treinamento.
Pois então, eu tenho dado aulas de inglês, e tem sido ótimo, graças à Deusa.
    Sempre quando me apresento aos meus alunos em suas aulas experimentais, digo que sou formado em engenharia elétrica na UFMG e que tenho mestrado nos EUA. Nesse momento, tenho que certeza que se passa pela cabeça deles: "nossa, mas com esse currículo ele está dando aulas? Que triste."
    Mas perceba, querido leitor, que não é uma tristeza, e sim uma das coisas que tem me trazido mais realização nos últimos tempos. Sinto que essa realização é genuína e não uma tentativa de me convencer por repetição de que estou feliz dando aulas. 
    Não é o que eu esperava estar fazendo um tempo atrás, realmente, mas tenho desenvolvido gosto pela coisa. Tive a oportunidade de me inscrever para dar aulas de engenharia, mas ao olhar a lista de matérias fui tomado por uma aversão à coisa tão grande que imediatamente broxei. Meu gosto por línguas, pelo contrário, foi uma coisa constante na minha vida: estudo inglês todos os dias desde os 17 anos, comecei o blog que mantenho há anos e agora estou escrevendo um livro para iniciantes no inglês. Acho que a resposta estava na cara, e eu era louco da cabeça de não perceber.
 
    
    A melhor parte é a independência financeira. Comecei há menos de três meses e já estou ganhando mais do que qualquer um dos concursos que fiz poderia me pagar. Agora, o céu é o limite, mas tenho poupado uma porcentagem altíssima para investir. Sinto que tenho que recuperar o tempo perdido, pensar em aposentadoria e me mudar para o meu próprio lugar: quem sabe voltar à BH ou outra cidade do Brasil, agora que sei como captar alunos. O que me prende aqui é a pão durisse de querer investir 70%-80% dos meus rendimentos, e pagar aluguel seria um atraso aos meus planos de ficar milionário. Um bom motivo que me levaria a sair seria morar com um mozão ou marido.
    Hipérboles à parte, morar sozinho é importante. É impossível arrumar um marido quando ainda se vive com os pais, e por falar em marido, pela 1ª vez na história consegui manter um relacionamento bom por seis meses. Estava/estou muito apaixonado, mas tivemos que terminar pois ele se mudou para fazer faculdade no fim do mundo.
    Nossa história é interessante, e vou me referir a ele como Felipe, pois é um nome que eu acho bonito e se eu tiver um filho homem, ele se chamará assim. Conversamos levemente em 2014 no Tinder e WhatsApp por poucas semanas antes de eu me mudar para os EUA, mas nunca tínhamos nos encontrado até o meu retorno em 2016. Acabamos perdendo contato depois da minha mudança para os EUA.
    De volta ao Brasil, na noite em que o conheci, eu estava bastante para baixo. Eu havia saído com um amigo e fomos para um bar onde nos encontramos com dois outros rapazes que havíamos conhecido na noite anterior. Eu fiquei bastante afim de um deles. Demonstrei interesse mas não surtiu efeito: ele acabou ligando o Grindr na minha frente, o que me deixou abatido e reflexivo. Lidar com rejeição é especialmente difícil quando se é gay.
    Quando ele saiu para se encontrar com um carinha do Grindr, decidi que também tentaria a sorte n a noite. Minha foto era bastante apelativa: mostrava meu corpo inteiro frontalmente, e eu me encontrava apenas de cueca com uma tarja preta escondendo os olhos (como se isso impedisse alguém de me identificar, eu sei...). Aquela era a foto que eu usava nos EUA e fazia bastante sucesso, então não me importei em mudar quando retornei. Me sentia bastante anônimo aqui em Divinópolis no início.
Não tive sucesso. Cheguei em casa me sentindo um bosta, mas vi que havia uma mensagem não lida no Grindr de algumas horas atrás. Ela perguntava:
_Você estava no bar da Val ontem?
    
    Sim, eu estava. Eu havia sido reconhecido. Era o Felipe, e eu não fazia ideia que ele estava no mesmo bar que eu. Não o vi em lugar nenhum, mesmo que que meus olhos estavam caçando naquela noite e eu reparei sim em vários rapazes lindos.
    A partir daí, com vários atrasos nas mensagens porque eu estava completamente desiludido com Grindr, começamos a conversar. Não sei explicar porque, mas nas primeiras mensagens eu já havia sido fisgado mesmo tendo visto apenas uma foto borrada dele, que foi a mesma foto que ele usara lá em 2014. Felipe diz que me reconheceu pelas minhas pernas, pois eu estava de bermudas.
    Dois dias depois, tivemos nosso primeiro encontro e almoçamos juntos. Na verdade, só ele comeu e eu o olhava comer, pois eu havia almoçado. Isso se tornaria uma rotina de quarta-feira, pois ele fazia cursinho perto de onde moro, e era uma desculpa para vê-lo.
No nosso primeiro encontro eu estava tão nervoso que acho que suei quando conversamos, mas também estava um dia bastante quente, então não sei até que ponto aquilo era nervosismo. No mesmo dia, combinamos de ir ao cinema à noite. Me arrumei, ele veio me pegar e tomamos um Chopp antes do filme. Conversamos sobre pormenores, e no cinema ele me perguntou se eu gostaria de me sentar no fundo. Eu respondi “por que não? ”. Eu já estava especulando o que ele tinha em mente.
    Estava difícil me concentrar no filme. A vontade de tocá-lo me distraía, mas eu estava muito inseguro, pois eu não sabia até que ponto ele estava interessado. De repente nossas mãos se encontraram, e ficaram dadas por um certo tempo. A posição estava desconfortável, e para não dar na cara que eu não queria mais segurar as mãos e evitar interpretações erradas, eu inventei uma desculpa de ir ao banheiro, o que não foi uma boa ideia, pois ele interpretou errado de qualquer forma. Quando voltei, o percebi distante, mais afastado na cadeira e sua linguagem corporal indicava fechamento até o resto do filme. Eu, totalmente inseguro, já tinha começado a pensar que ele não me queria e que continuava ali por educação. Depois do filme, entramos no carro, e estávamos em direção à minha casa.
    A noite teria sido um fracasso, não fosse uma parada de surpresa para comermos um sanduiche. Durante o lanche, conversamos mais, bebemos um pouco, relaxamos e um convite totalmente inesperado surgiu: ele me perguntou se eu gostaria de ir para casa dele, pois seus pais estariam dormindo. Eu, sempre inseguro, não sabia se responder sim seria uma boa ideia. Não me lembro qual o racional que usei para justificar meu ponderamento demorado depois de um convite tão explícito, mas acabei indo depois de pedir várias confirmações e ter 100% de certeza do seu interesse.
    Compramos algumas cervejas, começamos a beber e a conversar no sofá. Depois de duas horas conversando, nos beijamos. Depois de incessantes idas e vindas, depois de conversarmos em inglês, depois de várias cervejas, finalmente nos beijamos. Acho que o fato de eu estar levemente bêbado ajudou na “coragem”. Talvez ele também estivesse se sentindo nervoso também e relaxou com as cervejas. Ou talvez ele precisou beber até me achar bonito. Não sei muito bem, pois sofro de uma forte dismorfia corporal. Mas eu divago.
    A partir daí ele se tornou um tema central na minha vida. Eu pensava nele todo o tempo, eu ficava feliz quando ele me mandava mensagem, eu ficava animado com a ideia de vê-lo, era difícil até me concentrar em outras coisas, pois sempre me pegava pensando nele. Eu acho que eu estava me apaixonado, se já não o estivesse.

    Tivemos conflitos. Inúmeros. Até então, meu histórico havia sido extremamente desapegado e por falta de palavra melhor, putão. Eu fui honesto demais sobre meu passado, e isso o assustou. Ele sempre foi uma pessoa de ter namoradinhos mais longos, sempre foi comportadinho, e eu sempre rodado. Daí a única vez que me peguei querendo ficar de namorinho com alguém, ele vai embora. Que bosta, hein?!
Será que estaríamos juntos ainda se ele não tivesse ido? Talvez. Estávamos indo muito bem até sua partida. Apesar de um começo um pouco turbulento, acho que depois desse tempo juntos aprendemos a como lidar um com o outro.
    Uma coisa é conhecer uma pessoa antes de começar a namorá-la. Outra é conhecê-la durante o namoro, pois ficamos mais sensíveis às descobertas que nos assustam sobre nossos parceiros. Me trazia ansiedade cada coisa nova inesperada sobre ele, ou a cada reação que ele tinha e que eu não havia previsto, e ele às vezes também não sabia lidar com a minha personalidade.
    Foi um grande aprendizado. É surpreendente o tanto que aprendi sobre mim nesse tempo com ele.  Ainda nos falamos e tenho grande carinho por ele, mas ainda não o superei. Descobri que quando gosto sou fiel e um bom marido, coisa que eu não esperava. O fato de realmente gostar dele mudou completamente o que achava ser verdade sobre mim. Eu me achava incapaz de amar ou de manter alguém por perto. Eu me achava indigno de ser amado, e ele me mostrou o contrário. Eu descobri que eu solteiro sou completamente diferente do eu casado. Eu descobri que não existe orgulho quando se gosta. Eu corri atrás nas dificuldades, como nunca havia feito antes. Sei que ele também passou por cima do seu orgulho várias vezes. Eu queria mantê-lo por perto pelo máximo que eu conseguisse. Eu creio fortemente que eu o amei, e é uma sensação maravilhosa e eu gostaria de repetir com alguém com quem as circunstancias não nos separe. Nesta semana encontrei essa imagem do início com os dois rapazes, e realmente "eu ainda me lembro como me senti quando comecei a conversar com ele". 
    Então, é isso o que tem de novo por aqui.
    E com vocês, senhores, o que fizeram nesse ano? Como estão as vossas vidas? Seria legal ouvir as novidades de quem uma vez frequentou esse espaço, mas como abandonei o blog por um tempo, ele também foi abandonado por vocês. Fazer o quê...
Enfim, um grande abraço e até breve.

Henrique.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Das piadas que aceitamos

Um texto sobre sair do armário para 
um grupo de amigos héteros.


    Hoje assisti um filme curtinho, se chama "4th man out" (trailer), e é sobre um rapaz que sai do armário para seus melhores três amigos, todos héteros. A história foca em como sair do armário pode mudar as relações entre amigos, princpalmente quando eles não tiveram muito contato com homens gays na vida e ficam sem saber como agir, pois a masculinidade é frágil e ser aceptivo demais pode manchar a reputação perante aos outros membros do grupo de amigos. Para preservar a amizade, eles precisam de muito esforço e boa vontade para superar toda aquela awkwardness.
    Isso me lembrou uma situação que aconteceu comigo. Outros três amigos que fizeram elétrica comigo em BH também foram para os EUA, mas ficaram em cidades diferentes. Um em Boston, um em Chicago e outro no interior do estado de NY. Eles eram muito próximos entre si durante a graduação em BH, saíam juntos, e já eram íntimos, enquanto eu era bastante afastado. As circusntâncias nos trouxeram mais próximos, pois desde o processo seletivo para o mestrado nós tínhamos um grupo no zapzap e Facebook, e passar pelos mesmos problemas ajudou a criar um suporte e aumentar a amizade. Mesmo assim, nunca me senti seguro ou íntimo o suficiente para contá-los sobre minha sexualidade, e fui levando.
    Apesar de termos morado em cidades distantes uma das outras, a vantagem é que quando viajamos para nos reunir e conhecer outras cidades, não teríamos que pagar hotel. E saímos muito, e bebemos muito, e por beber muito eu nunca me importei de interagir com mulheres, pois nesses cenários já não me importo com o sexo da pessoa. É como se eu "virasse" hétero quando bebo, e isso contribuiu para manter minha sexualidade fora da atenção de todos. Não que eu estivesse buscando discrição, pois já estou fora do armário para minha família, mas enfim.

    Eles são héteros "de raíz", e acho essa descrição mais do que suficiente para explicar o que quero dizer. Caso exista margem para ambiguidade, me refiro àquele comportamento hétero escandaloso, escrachado e vulgar comum na cultura hétera, por mais generalista que isto soe. Não existe limite para piada entre eles: falam de perereca frequentemente e as piadas incluem um amplo espectro de preconceitos. É um humor bastante peculiar e politicamente incorreto mas, na nossa intimidade, é aceitável, pois entendemos nossos próprios transtornos. Nosso eu público é muito mais polido e contido do que nosso eu íntimo, não é mesmo? 
    No verão de 2015 decidimos viajar pelo Canadá por algumas semanas, fazendo uma car trip pelo leste para passarmos pelo máximo de cidades por um preço acessível. No começo da nossa viagem, eles estavam com brincadeiras de ser gay, como por exemplo "nossa, que vontade de levar uma dedada no cú". E eu também entrei na brincadeira, até que um dia eu fiz uma brincadeira tão pesada que eles começaram a me questionar. 
"Henrique, agora é sério... vc é gay, cara?"
    Depois de alguma insistência, eu confirmei a pergunta. Isso aconteceu na primeira semana da nossa viagem que duraria um mês. Se as coisas ficassem chatas, eu ainda teria que ficar na companhia deles por mais três semanas.
Felizmente, com a benção da deusa, eles reagiram bem!

    Mesmo depois de termos ido numa praia nudista, o que virou motivo de piada, eles não se importaram e as piadas continuaram, porém de forma mais focada. Por exemplo, diziam que a praia nudista foi minha ideia para vê-los pelados, ou depois diziam que não queriam beber refrigerante no mesmo copo que eu para não pegar aids. É pesado, realmente, mas naquelas situações eu achava muito engraçado e não me ofendia. 
    Eu ter saído do armário para eles foi de grande proveito. Além de poder beijar na frente deles, além deles entenderem melhor como eu penso e meus motivos para não querer ir a certos lugares, eles me ajudaram a conhecer um garoto muito fofo.
    Ficamos num hostel na Gay Village de Montreal, e lá saimos numa boate gay um dia. Saindo da festa, um dos meninos avistou um cara sentado sozinho mexendo no celular. Meu amigo chegou perto e o abordou, dizendo"Ei, você é gay? Eu tenho um amigo para te apresentar!". E lá fui eu.
    Como eles estavam indo embora, eu não pude me demorar e apenas tive tempo para pedir desculpas pelo comportamento do meu amigo bêbabdo e o adicionei no Facebook. Ao me despedir, eu fui para um aperto de mão e ele me beijou! Foi tão inesperado, e eu fiquei tão feliz com aquilo, tão romantiquinho e bonitinho, que quase me derreti alí. Nos reencontramos alguns meses depois quando ele visitou Nova York e eu pude conhecê-lo melhor. Ele é uma ótima pessoa, maravilhosa por dentro e por fora, e faz trabalhos sociais com homens que foram abusados sexualmente quando criança. 
    Apesar das piadas, eu sinto que posso ser autêntico com eles. De qualquer forma, agora no Brasil, creio que vamos nos distanciar ou nos ver com muito menos frequência, pois todos também moramos em cidades diferentes aqui, e não há tanta urgência, motivos ou dinheiro para viajar para outras cidades por aqui.
    Enfim. Vocês aceitariam que seus amigos brincassem que você tem aids, ou que você quer destruir famílias, ou que você não dorme abraçadinho depois do sexo porque gays não amam? Estes são exemplos das piadas que enduro.
Um grande abç,
Henrique.

P.S.: A brincadeira que fiz foi sobre roommates de um deles. O tópico era quem era mais gostoso, e eu disse "eu acho tal pessoa mais gostosa, mas tem cara de que mete fofo. O outro tem cara de que mete forte". Daí eles desconfiaram :)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Projetos Mãos Dadas - Existir

Relatei pra vocês, uns dois ou três post atrás, sobre a situação constrangedora que passei com meu namorado, voltando do cinema aqui em Niterói. Por mais que eu negue, aquele fato mexeu realmente comigo e com meu relacionamento e eu, mesmo já tendo sido vítima de homofobia, me vi numa encruzilhada: ser ou não ser quem, realmente, sou.

Conversando com meu namorado, percebi que existia mais coisas naquela situação do que pudemos imaginar. Nós, jovens, gays e metropolitanos acabamos de ser vítimas de uma "homofobia velada". Afinal, aqueles olhares não nos devoravam por curiosidade ou espanto do novo. Era ameça.

Bem, partindo de Lacan " o que você vai fazer com o que fizeram de você", resolvi fazer algo com "isso". E fiz, aliás, fizemos. Eu e meu namorado criamos o Projeto Mãos Dadas que quer dar visibilidade e representatividade aos relacionamentos gays do Rio, do Brasil e do Mundo! Assim como nós, descobrimos que outros casais e pessoas já se "esconderam" no arquétipo normativo para existir, para não ser agredido, para se manter vivo. E, quando nos omitimos de nós mesmos, perdemos a essência de quem realmente somos e isso é uma violação a nós mesmos.

Por isso, quero convidar você a curtir e compartilhar com a gente sua resistência ao existir como gay. Lá na page tem todas as informações para você enviar sua foto, seu texto e seu vídeo para que mais e mais homossexuais tenham força e coragem para sair dos seus armários e conquistar o mundo.

Vem com a gente, de mãos dadas!

https://www.facebook.com/coletivomaosdadas/


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