Google+

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Sobre um papel de trouxa, autodestruição, saída do armário e propósitos

Um texto sobre como minha vida de armário foi marcada por fugas,
sobre minha falta de entusiasmo com a vida 
e sobre como uma desilusão amorosa e estar no fundo do poço 
me incentivaram a sair do armário para minha família.

"Quando você perde o senso de fé, o senso de propósito maior, o senso de objetivo a ser alcançado, tudo começa a se tornar insignificante. A cada dia descobrimos que somos menores do que pensamos no dia anterior. Quando não há mais maneiras de imaginar um futuro de relevância existencial, só resta um calmante forte o suficiente: a autodestruição. Festas que nunca acabam, bebida, cigarros, cocaína, rachas de madrugada, brigas na rua. Cada uma dessas ações pode matar uma parte do indivíduo, porém, mesmo assim, é aliviante por um simples motivo: se eu estou destruindo algo, é porque algo ainda me resta. Cada um escolhe a melhor forma de fazer isso consigo mesmo, geralmente adotando um padrão de comportamento referente a algum tipo de trauma. A questão não é chamar atenção, mas simplesmente querer sentir algo." [Texto completo]

    A minha vida foi uma constante fuga.
    A primeira vez que eu fugi foi aos 14 anos, quando meu professor de educação física me convidou para fazer parte do time de vôlei da escola com os meninos do ensino médio, que eram um ou dois anos mais velhos que eu. Esse time disputaria um campeonato de esportes da cidade.
    Nos treinos eu não estava entre os melhores, mas me destacava por ser mais novo. Porém, no dia torneiro eu fui consumido por uma ansiedade gigantesca e pedi ao professor para me cortar do time, pois eu estava com medo de jogar.
    Uma outra fuga está relacionada com as dez horas por dia que eu passava estudando durante o ensino médio. Parece que isso era tanto uma fuga quanto uma preparação para outra fuga maior. Minha dedicação exagerada aos estudos funcionava como um subterfúgio para negar meu interesse em mulheres a mim mesmo e às pessoas próximas a mim, pois este interesse deveria estar se desenvolvendo naquela época. Talvez isso era uma desculpa para evitar, por exemplo, festas que pudessem me colocar numa situação em que eu me sentisse pressionado a interagir com uma menina. A fuga maior seria sair do interior, mudar para BH e fazer faculdade. Finalmente, a fuga mais recente foi para os EUA.
    Ou talvez minha vida não foi marcada por fugas. Talvez eu só era um jovem com poucas habilidades sociais e as circunstâncias me levaram a alguns lugares e a tomar certas decisões. Por eu estar no armário naqueles períodos, eu teria uma tendência a perceber estes acontecimentos como uma fuga, como se representassem uma busca por uma vida em um lugar melhor. Isso pode ou não ser verdade.
    Quando comecei a escrever esse texto há alguns minutos (ou horas), essa ideia de fuga estava solidificada na cabeça. É engraçado começar a escrever um texto com uma percepção de si e, no parágrafo seguinte, já não conseguir sustentar a conclusão que eu tinha sobre minha própria vida. Venho percebendo que não existem verdades comigo, e toda percepção e toda conclusão podem ser questionadas. Não existem sim ou não, mas apenas talvez.
    Se por um lado rejeitar uma posição engessada pode evitar conclusões e decisões precipitadas, apoiar-se no talvez pode causar paralisia. A ideia de fuga era aceitável para mim pois, insatisfeito com meu ambiente e com a minha situação, eu estaria sempre em busca de algum lugar em que eu pudesse me sentir em paz, mas eu não percebia que, na verdade, eu estava fugindo de mim mesmo. Vem comigo nessa explicação.
    
    Neste ano, eu passei 19 dias em Junho no Brasil, dos quais 6 foram em BH. Talvez, muito talvez, subconscientemente, um dos motivos de eu ter ido para o Brasil pode ter sido um súbito interesse por um novinho de BH. Interessante mesmo é perceber como as pessoas que me interessam tem apresentado algum tipo de impedimento: ou são héteros, ou há distância. Os meus relacionamentos possíveis, do dia a dia, nunca me causaram interesse a ponto de mexer comigo, e assim eu vou me sabotando.
    Sobre o novinho, o achei bonito desde o dia em que o conheci. Ele foi quem me substituiu na minha república quando eu saí, portanto meu contato real com ele se limitou a uma entrevista de apresentação e mais dois outros dias antes de eu vir para os EUA. Não mantivemos contato significante até recentemente, quando eu já estava fora do Brasil e então, ele entrou na minha cabeça.
    Ele é gay, o que é uma imensa vantagem, porém uma puta, literalmente, mas sem conotação negativa. Uma das coisas que nos aproximou foi a possibilidade de compartilhar nossas aventuras sexuais numa troca livre de julgamentos.
    O novinho é um doce de pessoa. Ele usa seu corpo, grande e macio, para te envolver num abraço bem abraçado e longo. Ele te toca quando fala, ele pega nos seus ombros e aperta como se estivesse fazendo massagem. Ele segura decididamente no seu braço e peito para comentar "como você está malhado!". Ele senta sobre suas pernas quando você está deitado e repousa sua cabeça no seu colo para dizer que está carente, enquanto você faz cafuné. Ele é desses.
    De qualquer forma, minhas investidas por ele falharam terrivelmente, mas mesmo assim não consegui tirá-lo da cabeça. Como a filósofa contemporânea Selena Gomez diz, "the heart wants what it wants".
    
    Ele havia me rejeitado mesmo antes de eu ir para o Brasil em Junho. Dizia que me considerava como um bom amigo, mas enquanto estive em BH todas essas demonstrações de afeto me deixaram extremamente confuso e minhas esperanças foram revividas, pois não estou acostumado a contatos corporais sem compromisso. No meio da minha estadia em BH, um amigo que conhece bem o novinho e a mim me abriu os olhos e me fez perceber que o interesse realmente não era recíproco, e que eu estava querendo ver coisas que não existiam, matando novamente minhas esperanças. O timing não poderia ter sido pior, pois estávamos a caminho de uma balada quando ele me abriu os olhos.
    Não contendo a montanha russa de sentimentos dentro de mim, me acabei em lágrimas na praça da Savassi numa noite de sexta, sem me importar com quem estivesse passando, e sendo confortado pelo mesmo amigo que acabara com minhas esperanças. Nunca chorei tanto em minha vida na frente de alguém depois de adulto, e pior: em público. Foram 30 minutos? Duas horas? Não tenho ideia, pois nós perdemos bastante o senso de tempo quando estamos bêbados. Considero até a possibilidade de haver fotos minhas circulando na web com o título de "o louco chorão da savassi".
    Naqueles momentos de colapso emocional pré-balada, pude verbalizar minhas angústias e perceber que alguns comportamentos comuns em minha vida tornaram-se pronunciados durante minha estadia no Brasil, a saber sexo e álcool.
    Minha relação com álcool é motivada pela fuga do vazio existencial e da falta de propósito na vida, com efeitos negativos sobre meu corpo. Tenho histórico de dois dentes quebrados em duas situações diferentes, unhas dos dedões dos pés destruídas e um acidente com cerca elétrica que poderia ter me custado a vida. É uma relação destrutiva por motivos óbvios. O problema com a impessoaldade no sexo é que isso traz solidão e pode, eventualmente, trazer problemas de saúde, uma vez que não existe 100% de proteção. “...se eu estou destruindo algo, é porque algo ainda me resta.”

     Uma pessoa que está em paz consigo mesma e que se ama não atenta contra a sua integridade física e mental e, depois de BH, voltando para a casa dos meus pais onde eu passaria os últimos dias antes de retornar aos EUA, eu decidi que precisava de uma mudança drástica na minha vida, que pudesse me ajudar a parar de ter comportamentos autodestrutivos e começar uma rotina positiva.
    Quatro dias depois de ter deixado BH derrotado, eu finalmente contei à minha mãe e irmã sobre a minha sexualidade. Numa semana em que eu estava emocionalmente frágil, tanto por ter visto minhas esperanças com o novinho destruídas, quanto por se aproximar a minha despedida do Brasil, minha mãe percebeu e começou a me questionar. Dentre todos os cenários que se passaram na minha cabeça, eu sempre me imaginei contando como se fosse uma coisa banal, com a voz tranquila, com o controle da situação e sem mais dramas. Não tendo me recuperado do colapso emocional recente, sempre que eu ensaiava começar a contar e tomava fôlego para iniciar uma frase, a angústia entupia minha garganta e nada saía, e eu me retirava do cômodo para chorar em silêncio. Isso se repetiu duas ou três vezes.
    Eu havia planejado passar em BH a última sexta feira em que estaria no Brasil, e percebi que minha mãe não havia gostado muito da minha decisão. Quando chegou sexta-feira, antes de eu ir para BH novamente, durante o almoço junto a minha mãe e irmã, minha mãe insinuou que eu preferia gastar meus últimos dias em BH com amigos ao invés de ficar com a família. Eu voltaria para os EUA no domingo.
    No meu estado frágil, fiz um esforço para me conter mas comecei a chorar na mesa, aquele choro silencioso, quando só escorrem lágrimas mas que não te deixa falar. Expor sua fragilidade emocional é meio caminho andado, e dali eu já sabia que teria que justificar o meu choro. Quando eu perguntei à minha mãe por que que ela achava que eu gostava tanto de BH, ela respondeu com o fato de eu ter morado lá por muitos anos, amigos, etc. Quando ela terminou a resposta eu acrescentei:

_Sim, mãe, mas também porque eu sou gay!

    Naqueles poucos segundos de silêncio em que ela tentava fazer sentido do que eu havia acabado de dizer, eu observei atentamente a sua reação. Seus olhos se arregalaram, sua boca se abriu em espanto e depois se fechou e se curvou para baixo, e pela minha cabeça se passou apenas a surpresa de pensar que ela não sabia. Subitamente, o silêncio foi interrompido por minha irmã que gritou "Ha! Eu sabia!!!".
    A partir daí, minha mãe começou a fazer perguntas constrangedoras, numa tentativa de achar algum culpado, como se homossexualidade precisasse de explicação. Foram elas:
_Mas você tem certeza?
_Mas você já esteve com uma mulher?
_Mas você foi molestado?
_Mas isso é por que seu pai é ausente?
    Num grande esforço para me recompor, respondi às perguntas e tentei iniciar a desconstrução dos preconceitos que as geraram.
_Sim, mãe, certeza desde muito novo!
_Não mãe, mas e você, já esteve com uma mulher?
_Não, mãe, eu não fui molestado!
_Não, mãe, lembra aquele meu amiguinho de infância sem pai? Ele cresceu e é hétero.
    Depois das perguntas, fui surpreendido por um discurso muito acolhedor, quando ela disse que ela continuaria me amando do jeito que eu sou. Perguntei se ela não desconfiava, e ela respondeu "às vezes... você nunca falava de mulher e nunca vi você com nenhuma. Eu pensava que você era só uma pessoa reservada, mas fora isso, nada".
    É bem engraçado como imaginamos diversos cenários e discursos sobre esses momentos, e quando eles realmente acontecem, fogem totalmente do script. Sempre imaginei que o drama maior não viria de mim, e sim dela, porém a realidade inverteu os papéis. Eu fui muito mais dramático do que as duas juntas, e eu não me vi agindo assim em nenhum dos milhões de cenários em que me imaginei contando.
    Talvez isso possa ser um divisor de águas na minha vida, quando minhas vidas se encontram e não existe mais armário para separá-las. Talvez isso possa ter algum efeito na minha constante fuga, ou possa ter algum impacto sobre como eu lido com sexo e sentimentos. Talvez isso me ajude a reduzir meus atos autodestrutivos.

    Ao mesmo tempo, ainda estou esperando sentir aquela sensação de alívio que tantos falam, de ter tirado um peso dos ombros. Apesar de eu ainda não ter tido tempo de entender como isso poderá afetar minha relação com minha mãe, tenho medo de estar tão mergulhado em indiferença que eu já não consiga me sentir entusiasmado com nada.
    Prefiro pensar que esta falta de entusiasmo seja uma parte comum na vida de todos, e parte de se tornar adulto. No fundo no fundo, todos somos miseráveis, mas alguns sabem lidar melhor com isso mantendo seus corpos em movimento e cabeças ocupadas o tempo todo, ou nao se questionando para não caírem num poço infinito de desespero. Também imagino que aquela dificuldade em definir as coisas na minha vida como 'sim' ou 'não', e tudo em 'talvez', possa ser uma das causas da minha falta de entusiasmo para a vida. Se tudo for definido por ‘talvez’, não existem verdades e persegui-las será uma perda de tempo.
    Não que eu não consiga sentir nada, pois angústia e ansiedade são companhias constantes, mas quero sentir sentimentos bons também. Talvez eu só esteja lidando com uma depressão, mas quem não lida? Talvez eu só precise de um terapeuta, mas no momento isso é um luxo. Aqueles dias em que passei no Brasil foram um turbilhão de emoções, e dali percebo que tenho que parar com meus comportamentos autodestrutivos e evitar emoções negativas. O novinho foi a 1a pessoa que conseguiu me afetar em anos (mais de meia década), e mesmo que tivesse rolado alguma coisa, ainda haveria o impeditivo da distância que também me causaria destruição. Sexo e álcool deverão ser controlados, e a minha busca por propósito, paz e realização estão intrinsecamente relacionadas ao que eu crio e cultivo, pois se eu estou criando, através do meu trabalho e da minha imaginação, eu estou existindo fora de mim. Tenho que passar a ter menos comportamentos destrutivos e mais comportamentos construtivos, e isso vale para produção física, artística e relações humanas, assim como ações construtivas sobre meu corpo e mente. O meu ambiente e as pessoas ao meu redor têm de ser constantemente beneficiados pela minha construção, e assim eu sinto propósito na minha existência. Talvez eu me sinta indiferente com recentes acontecimentos porque eu ainda não consegui criar nada a partir deles, e sem entusiasmo com a vida porque sinto que não estou criando nada para o mundo. 
    Alguns dos motivos apresentados por pesquisas para justificar o aumento da taxa de suicídio de homens americanos é uma recente quebra dos três pilares que sustentaram a tradicionalidade dessa sociedade: Deus, família e trabalho. Dedicar-se a esses três pilares pode dar propósito às pessoas, pois em Deus você existe além do seu corpo e além da vida terrânea, no trabalho seu pensamento é materializado e existe fora da sua cabeça, e na família (com filhos, principalmente) você existe em outros. Em contraste, eu não cultivo nenhum desses pilares, o que pode me afetar negativamente. Meu trabalho não me dá propósito, eu nego a existência de Deus, minhas ações e filosofias não me levam à construção de uma família e meus sexos não são relações frutíferas. Se a felicidade está condicionada à prática de ações frutíferas, sair do armário não me foi suficiente. Pelo menos por enquanto.

    De qualquer forma, aqui está uma criação me dando propósito.

Finalmente, para os senhores:
1 - Vocês também apresentam ou já apresentaram comportamentos autodestrutivos?
2 – Como foi a história de quando vocês contaram para suas famílias? Vocês foram tão dramáticos quanto eu fui? Vocês sentiram a sensação de alívio? Como foi a reação deles?
3 – O que te dá propósito e quais as suas ações frutíferas?
Um grande abraço.
H.B.
#HTML10{background:#eee9dd ;}