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segunda-feira, 27 de junho de 2016

Das piadas que aceitamos

Um texto sobre sair do armário para 
um grupo de amigos héteros.


    Hoje assisti um filme curtinho, se chama "4th man out" (trailer), e é sobre um rapaz que sai do armário para seus melhores três amigos, todos héteros. A história foca em como sair do armário pode mudar as relações entre amigos, princpalmente quando eles não tiveram muito contato com homens gays na vida e ficam sem saber como agir, pois a masculinidade é frágil e ser aceptivo demais pode manchar a reputação perante aos outros membros do grupo de amigos. Para preservar a amizade, eles precisam de muito esforço e boa vontade para superar toda aquela awkwardness.
    Isso me lembrou uma situação que aconteceu comigo. Outros três amigos que fizeram elétrica comigo em BH também foram para os EUA, mas ficaram em cidades diferentes. Um em Boston, um em Chicago e outro no interior do estado de NY. Eles eram muito próximos entre si durante a graduação em BH, saíam juntos, e já eram íntimos, enquanto eu era bastante afastado. As circusntâncias nos trouxeram mais próximos, pois desde o processo seletivo para o mestrado nós tínhamos um grupo no zapzap e Facebook, e passar pelos mesmos problemas ajudou a criar um suporte e aumentar a amizade. Mesmo assim, nunca me senti seguro ou íntimo o suficiente para contá-los sobre minha sexualidade, e fui levando.
    Apesar de termos morado em cidades distantes uma das outras, a vantagem é que quando viajamos para nos reunir e conhecer outras cidades, não teríamos que pagar hotel. E saímos muito, e bebemos muito, e por beber muito eu nunca me importei de interagir com mulheres, pois nesses cenários já não me importo com o sexo da pessoa. É como se eu "virasse" hétero quando bebo, e isso contribuiu para manter minha sexualidade fora da atenção de todos. Não que eu estivesse buscando discrição, pois já estou fora do armário para minha família, mas enfim.

    Eles são héteros "de raíz", e acho essa descrição mais do que suficiente para explicar o que quero dizer. Caso exista margem para ambiguidade, me refiro àquele comportamento hétero escandaloso, escrachado e vulgar comum na cultura hétera, por mais generalista que isto soe. Não existe limite para piada entre eles: falam de perereca frequentemente e as piadas incluem um amplo espectro de preconceitos. É um humor bastante peculiar e politicamente incorreto mas, na nossa intimidade, é aceitável, pois entendemos nossos próprios transtornos. Nosso eu público é muito mais polido e contido do que nosso eu íntimo, não é mesmo? 
    No verão de 2015 decidimos viajar pelo Canadá por algumas semanas, fazendo uma car trip pelo leste para passarmos pelo máximo de cidades por um preço acessível. No começo da nossa viagem, eles estavam com brincadeiras de ser gay, como por exemplo "nossa, que vontade de levar uma dedada no cú". E eu também entrei na brincadeira, até que um dia eu fiz uma brincadeira tão pesada que eles começaram a me questionar. 
"Henrique, agora é sério... vc é gay, cara?"
    Depois de alguma insistência, eu confirmei a pergunta. Isso aconteceu na primeira semana da nossa viagem que duraria um mês. Se as coisas ficassem chatas, eu ainda teria que ficar na companhia deles por mais três semanas.
Felizmente, com a benção da deusa, eles reagiram bem!

    Mesmo depois de termos ido numa praia nudista, o que virou motivo de piada, eles não se importaram e as piadas continuaram, porém de forma mais focada. Por exemplo, diziam que a praia nudista foi minha ideia para vê-los pelados, ou depois diziam que não queriam beber refrigerante no mesmo copo que eu para não pegar aids. É pesado, realmente, mas naquelas situações eu achava muito engraçado e não me ofendia. 
    Eu ter saído do armário para eles foi de grande proveito. Além de poder beijar na frente deles, além deles entenderem melhor como eu penso e meus motivos para não querer ir a certos lugares, eles me ajudaram a conhecer um garoto muito fofo.
    Ficamos num hostel na Gay Village de Montreal, e lá saimos numa boate gay um dia. Saindo da festa, um dos meninos avistou um cara sentado sozinho mexendo no celular. Meu amigo chegou perto e o abordou, dizendo"Ei, você é gay? Eu tenho um amigo para te apresentar!". E lá fui eu.
    Como eles estavam indo embora, eu não pude me demorar e apenas tive tempo para pedir desculpas pelo comportamento do meu amigo bêbabdo e o adicionei no Facebook. Ao me despedir, eu fui para um aperto de mão e ele me beijou! Foi tão inesperado, e eu fiquei tão feliz com aquilo, tão romantiquinho e bonitinho, que quase me derreti alí. Nos reencontramos alguns meses depois quando ele visitou Nova York e eu pude conhecê-lo melhor. Ele é uma ótima pessoa, maravilhosa por dentro e por fora, e faz trabalhos sociais com homens que foram abusados sexualmente quando criança. 
    Apesar das piadas, eu sinto que posso ser autêntico com eles. De qualquer forma, agora no Brasil, creio que vamos nos distanciar ou nos ver com muito menos frequência, pois todos também moramos em cidades diferentes aqui, e não há tanta urgência, motivos ou dinheiro para viajar para outras cidades por aqui.
    Enfim. Vocês aceitariam que seus amigos brincassem que você tem aids, ou que você quer destruir famílias, ou que você não dorme abraçadinho depois do sexo porque gays não amam? Estes são exemplos das piadas que enduro.
Um grande abç,
Henrique.

P.S.: A brincadeira que fiz foi sobre roommates de um deles. O tópico era quem era mais gostoso, e eu disse "eu acho tal pessoa mais gostosa, mas tem cara de que mete fofo. O outro tem cara de que mete forte". Daí eles desconfiaram :)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Projetos Mãos Dadas - Existir

Relatei pra vocês, uns dois ou três post atrás, sobre a situação constrangedora que passei com meu namorado, voltando do cinema aqui em Niterói. Por mais que eu negue, aquele fato mexeu realmente comigo e com meu relacionamento e eu, mesmo já tendo sido vítima de homofobia, me vi numa encruzilhada: ser ou não ser quem, realmente, sou.

Conversando com meu namorado, percebi que existia mais coisas naquela situação do que pudemos imaginar. Nós, jovens, gays e metropolitanos acabamos de ser vítimas de uma "homofobia velada". Afinal, aqueles olhares não nos devoravam por curiosidade ou espanto do novo. Era ameça.

Bem, partindo de Lacan " o que você vai fazer com o que fizeram de você", resolvi fazer algo com "isso". E fiz, aliás, fizemos. Eu e meu namorado criamos o Projeto Mãos Dadas que quer dar visibilidade e representatividade aos relacionamentos gays do Rio, do Brasil e do Mundo! Assim como nós, descobrimos que outros casais e pessoas já se "esconderam" no arquétipo normativo para existir, para não ser agredido, para se manter vivo. E, quando nos omitimos de nós mesmos, perdemos a essência de quem realmente somos e isso é uma violação a nós mesmos.

Por isso, quero convidar você a curtir e compartilhar com a gente sua resistência ao existir como gay. Lá na page tem todas as informações para você enviar sua foto, seu texto e seu vídeo para que mais e mais homossexuais tenham força e coragem para sair dos seus armários e conquistar o mundo.

Vem com a gente, de mãos dadas!

https://www.facebook.com/coletivomaosdadas/


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Um comentário

Fico tentando a ter empatia com o Jean pelo histórico de retórica facista do Jair que todos já conhecem, mas também prezo pelo respeito e parcimônia que devem existir para que o debate político seja produtivo. Por isso, deploro sua atitude mas sigo convicto de que as palavras que saíram da boca do Jair ao longo desses anos causam muito mais danos do que uma cuspida na cara.
-Henrique.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Imagine um homossexual qualquer



Ser homossexual exige, antes de tudo, coragem. Antes das baladas, dos memesda Inês Brasil e das gírias próprias, nascer e crescer homossexual é um ato de bravura admirável. Não, não estou exagerando. Talvez você nunca tenha pensado nisso, mas em certos momentos, temos mais medos que esperanças no futuro, sensação que aprendemos a conviver para nos mantermos sãos e, o mais difícil, vivos.


É difícil pensar que alguém escolheria ser gay, nas conjunturas que nos foram impostas. De verdade, você acredita que alguém escolheria a possibilidade de perder pais, amigos, oportunidades de trabalho pelo simples fato de amar alguém do mesmo sexo que ele? Ou, pior, alguém escolheria viver sobre a vigilância de olhares maliciosos à espera de um momento para agredir-nos fisicamente? Eu sei, nesses tempos isso tem sido quase impossível, mas se coloque no lugar do outro…


O medo de não ser aceito assombra nossa mente desde muito novos, quando nos entendemos homossexuais. Você que convive de perto com um homossexual, aceitando-o ou não, já imaginou a dor e o pavor de ser simplesmente quem se é; as lágrimas de desespero implorando a Deus “cura”; os planos de se adequar a heterossexualidade; a tentativa de provar, incansavelmente, sua sexualidade…. Eu sei, nesses tempos isso tem sido quase impossível, mas se coloque no lugar do outro…


Doeu, né? Na gente também, doeu e dói muito. Existem violências que não deixam marcas na pele, mas são tão profundas que nos marcam até o final da vida. Mesmo que o homossexual que você conheça não tenha sido vítima de homofobia, imagine o receio que ele tem em andar de mãos dadas nas ruas ou de ser afeminado mesmo em locais seguros. Desde muito cedo aprendemos que não existe local totalmente protegido, mesmo nos bairros ditos “mente aberta”. As agressões ao casal da Paulista e os ataques nas Praias da Zona Sul denunciam que não estamos seguros, por mais que viaturas da polícia nos cerquem. Eu sei, nesses tempos isso tem sido quase impossível, mas se coloque no lugar do outro…


Você pode dizer que melhorou bastante e o futuro promete… Bolsonaro! Sim, um homem que dedica sua — longa e cara — carreira de parlamentar a perseguir minorias cresce a cada dia em intenções de voto dos lares brasileiros. Seus seguidores se multiplicam e seu discurso começa a ecoar nas ruas, assim como nossos gritos de socorro! Sem contar Marco Feliciano e Silas Malafaia que atacam o que somos em nome de Deus, nos transformando na escória da sociedade.


E tememos Deus…


E tememos ser deixados…


E tememos ser agredidos…


E tememos ter medo…


Ser homossexual exige, antes de tudo, coragem. As marcas no corpo, na alma e no espírito são os sinais de homens, mulheres e trans que não desistiram de ser quem realmente são e lutam a cada dia por se espaço no mundo, no Brasil, dentro de suas casas e dentro de si mesmas. Alguns não resistem e se vão pelo caminho, mas é em nome delas que estamos aqui, e é em nome de uma em especial que estou aqui, gritando ao mundo a delícia de ser quem eu sou, pois a dor muito poucos imaginam.


Em memória de Luan Ferreira de Castro*, que partiu há dois anos atrás, depois de uma tentativa FALHA de cura gay e consequente suicídio.


**


No mais, assistam o vídeo, é gringo, mas a dor é universal…


https://www.youtube.com/watch?v=HruTY0ue1ns

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Revolução sim, mas de amô ~leia com a voz da Inês Brasil~


Existe uma revolução acontecendo enquanto escrevo essas linhas e ela nunca foi tão necessária. Nesse exato momento, milhares de homossexuais estão sendo quem realmente são e não escondendo mais suas orientações sexuais. Todos, em suas profissões, em suas vidas particulares e nos barzinhos com os amigos sendo... gays! Quebramos a porta do armário e estamos saindo aos montes, até pelas gavetas. É hora de colocar a cara no sol!
Por muito tempo vivemos escondidos em breus, guetos e baladas escondidas frequentadas só depois da meia noite. De dia, fingimos ser héteros, engrossando a voz, segurando as mãos e enrijecendo o corpo, numa clara agressão ao nosso corpo, nossa alma e nossa mente. Fomos moldados assim, entendendo que ser “gay”, “bicha” e “mulherzina” é xingamento e a pior coisa do mundo, mas não é. Não mais.
Ainda não temos todos os nossos direitos e a proteção que precisamos para existir, de mãos dadas e beijos em todos os lugares, às claras, mas evoluímos muito desde a última década: de personagem cômico a protagonistas da nossa própria história. Longe da ditadura gayzista que SilasBolsoLiciano predizem, a única coisa que queremos é respeito e não ser atacado por pessoas mal resolvidas com a própria sexualidade. Falta muito, mas a gente chega lá.
Ontem, saindo com meu namorado do cinema de mãos lindamente dadas, encontramos pela frente alguns olhares de desaprovação, de estranheza e alguns de surpresa. No começo, não nego, tive um certo medo pela nossa integridade física, contudo comecei a perceber que meu discurso estava tomando forma no ato de dar as mãos a quem eu amo: EU EXISTO E MEU RELACIONAMENTO TAMBÉM.
Eu respeito seu tempo, também tive o meu. Não é fácil nadar contra a corrente e encaixar-se perfeitamente no padrão é quase um vício, mas não posso deixar de fazer uma pergunta, o mesma pergunta que a vida me fez ontem e que me fará todos os dias: QUER VIVER OU CONTINUAR EXISTINDO?


segunda-feira, 28 de março de 2016

Cura gay: eu fui

Não me orgulho, mas já fui hétero. Sim, durante 21 anos da minha vida, vivi no submundo da heterossexualidade, falando palavras como “top”, “show” e “brodagem”, criticando a sexualidade alheia para reforçar minha frágil identidade. Porém, depois de dois namoros e muitas desilusões, percebi que a vida poderia ser mais do que um jogo de reafirmações sociais, eu poderia ser feliz, mas esse não foi um processo fácil – e acredito que nunca é. Nas palavras de Paulo Leminski: Isso de querer ser/exatamente aquilo que se é/ainda vai nos levar/além. E levou...

Minha história não é muito diferente da maioria dos gays da nossa geração: Família religiosa, pressões sociais e medos, muitos medos. Não consigo dizer se me tornei gay ou se dei vazão a esses sentimentos já velho, mas posso afirmar que realmente amava minha segunda namorada, algo muito particular e único. Mesmo não preenchendo todo o cheklist da heteronormatividade, segundo meus amigos, “não dou pinta”, o que tornou minha vida “mais fácil”. Para além dos preconceitos contidos nessas afirmações, foi uma época muito dolorida, principalmente no início dos meus vinte e um anos.

Depois que me separei de Luiza (nome fake, assim como o meu) e me descobri gay – essa história é longa, fica para o próximo post -, eu perdi o norte da minha vida. Nessa época eu era quase um fundamentalista cristão, acreditava em cada palavra da Bíblia, numa interpretação ao pé da letra e, então, me descobri sendo, segundo a interpretação de alguns, abominação. Lembro que eu chorava madrugadas à dentro, com a Bíblia aberta, pedindo libertação de um desejo a um divino que parecia não me escutar. Fazia votos com Deus de nunca fazer sexo com homens e quando batia punheta pensando em sexo gay, me castigava fisicamente, sofrendo para aplacar a raiva que sentia de mim mesmo e dos meus desejos. A dor de ser aquilo que se odeia não cabe em palavras para esse texto, mas eu entendo cada suicídio (não) noticiado de jovens gays: Eu sou um pouco deles, ou, melhor, todos os gays são um pouco deles, de certa forma...



Lá pelas tantas, na minha angústia existencial, encontrei um grupo chamado G.A (grupo de amigos), que afirmava que a cura gay era possível a partir de terapias em grupos, confissões e muita repressão, sexual e sentimental. Segundo eles, a homossexualidade poderia ser causada tanto pela obsessões de espíritos demoníacos quanto por problemas familiares e abusos sexuais. Eu sei, soa cômico como eles reduzem a multiplicidade da sexualidade humana em atravessamentos negativos, mas na época era minha tabua de salvação. Encaixei problemas nas explicações deles e acreditei que minha sexualidade era uma doença a ser curada. Não foi. Quase quatro anos depois, sobrevivi para contar as atrocidades e os abusos cometidos por um grupo de pessoas que, não satisfeitas com a sua sexualidade, vivem em função de reprimir as alheias.

Tentei, mas não consegui relatar ponto a ponto o que passei durante esse período no G.A. Não me lembro o tempo exatamente, acredito que um ano, mas deixou feridas na minha vida que curo a cada dia, com muito amor. Hoje, assumido pro pessoal do futebol, do boxe, família e, principalmente, para Deus, vivo uma vida única, sem medo ou vergonha de ser quem eu sou e isso ninguém pode tirar de mim, não mais.

Não existe cura porquê não é doença, nem na medicina nem para Deus – não importando qual deles. Nenhuma religião aborda a homossexualidade como castigo ou pecado, acredite, , eu pesquisei incansavelmente todos os textos que eles usam para atacar a homossexualidade e todos são lidos tendenciosamente, gritados aos quatro cantos para pessoas de coração duro e cérebro mole.

Eu, depois de tudo, me tornei budista, mas nunca abandonei minha vertente cristã. Respeito de todo coração sua religião ou ausência dela, mas gostaria de destacar um versículo Bíblico único que eles não costumam abordar muito, até porquê, vai contra tudo que eles dizem:


Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Atos 10:34

terça-feira, 22 de março de 2016

Eu mereço ser amado, porra!



Sempre fui um cara que escreveu muito sobre amor, paixão e as mais intermináveis variações que habitam esses dois sentimentos. Li vários livros, artigos científicos, livros água com açúcar para ter o máximo de domínio sobre o assunto e, no início desse ano, percebi que não sabia nada. Não, esse não é um texto sobre o amor e o que ele faz – te deixando sem saber como agir ôÔÔô -, mas sobre como eu, você e até seu ex fdp merecem amor. Muito amor.

Não é fácil estabelecer conexões amorosas no nosso meio – o gay. Nada nos indica que é possível dois homens se amararem, seja pela vida inteira ou por um breve momento. A mídia televisa mostra mal e porcamente casais gays e, quando mostra, eles não tem sexualidade, no máximo um selinho – que quase causou a primeira guerra mundial na internet brasileira! Pela rua, poucos são os casais corajosos que se dão aos mãos, se beijam e expressam o que realmente sentem e vivem, no melhor sentido da palavra, um amor, no tempo que for. Sem contar esse nosso desejo feroz em busca do sexo que respinga nas nossas relações amorosas. Quem nunca pensou que aquele cara incrível que conheceu no Tinder poderia ser o amor da sua vida?

Alguns, sem medo ou sem noção, se jogam nesse mundo que, ao que parece, não foi feito para nós. Entre o sexo pulsante e a falta de representatividade e respaldo, nos tornamos seres relutantes ao amor e ao relacionamento a dois, a três ou quanto caber no coração. Pelo que vejo, e sinto, homens gays terminam e começam relacionamentos mais rápidos que héteros, com juras de amor e lágrimas na mesma intensidade. Como operadores de um máquina de demolição sem um manual de instruções, fazemos nosso melhor para construir algo com um outro que, algumas vezes, não dá certo e, em outras, dá muito errado. Muito.





Pra mim não foi diferente. Dei errado e, algumas vezes, dei muito errado com caras que ou tinham medo de expressar o que sentiam ou só queriam foder – e não há problema nisso, desde que os dois estejam plenamente de acordo e, nesses casos, eu não estava. Busquei intensamente alguém, no Tinder, no Grindr, nos barzinhos e nas baladas alternativas alguém para construir comigo um relacionamento e viver tudo aquilo que poderia ser vivido.

A carência de uma vida inteira era coloca na expectativa de um novo relacionamento que sempre naufragava nos primeiros meses. O ideal de homem nunca era suprido, tanto meu quanto dele, e no mesmo fogo que começava, terminava. Mesmo ariano, fogo da cabeça aos pés, não poderia culpar meu signo por tantas desilusões, uma atrás da outra, como num disco riscado. Muito riscado.
Eu sei, cansa. Cansa pra caralho e o medo de recomeçar e dar errado de novo se torna maior do que a esperança e morremos na praia na primeira briga, desentendimento ou desilusão. Mas, pense pelo outro lado, o seu par também está tão perdido como você, com tanto medo de naufragar quanto você! O medo da solidão e do abandono o assola também e, no final, são dois cegos recuperando a visão de um mundo novo que, como disse, parece que não foi feito para nós. Mas foi, muito!

Nós merecemos ser amados, meus caros, nunca duvidem disso. Eu não sei como, eu ainda não sei o porquê, mas a gente ainda vai conhecer/descobrir alguém que vai nos mostrar tudo que podemos viver a dois. Se posso dar uma dica à vocês seriam DESCONSTRUAM o máximo que puderem a ilusão do homem perfeito, do corpo perfeito, do pau perfeito, isso não existe! Os caras de filme pornô e os modelos do Instagram, com corpos e sexos perfeitos são apenas ilusões de uma sociedade doente pela perfeição dos corpos.


Você será amado pelo que é, do jeito que é, pelas qualidades que têm. Não quero fazer um discurso motivacional, mas depois de tantos livros, artigos e livros de água com açúcar lidos, se posso tirar algo deles, seria: o amor é possível para nós, porra!  

E vocês, tem histórias de amor, quase amor e similares? Conta aqui em baixo, leio e comento todas - até pq, não há nada melhor do que comentar o relacionamento dos outros, né? <3      

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Crônica 01

    
    Nesta semana conheci um cara que mora perto de mim aqui em NY. Trocamos oito mensagens e duas ou três fotos até que me decidi colocar 3 camadas de roupas e ir conhecê-lo para alguns minutos de diversão. 
    Depois de 5 minutos de caminhada, cheguei a sua casa e lá nos divertimos como planejado. Por mais incomum que seja em minha vida, depois de eu ter gozado, ficamos uns minutos deitados juntos na cama fazendo carinho e apreciando a companhia e o corpo um do outro. Em 82% dos meus encontros, eu já estaria com calças e me arrumando para ir embora alguns segundos depois de ter gozado.
    Ali, na cama, em certo momento, o rapaz pega a minha mão e entrelaça seus dedos com os meus. Ao mesmo tempo em que ele fazia isso, ele também disse: "eu espero que você não ache isso estranho". 
    Eu, chocado com a minha inabilidade de lidar com aquela afirmação, dei uma risadinha. Ao constatar tamanha a ironia da situação, comentei que ele havia acabado de pegar na minha bunda e meu pau e em todo o meu corpo e, mesmo assim, ele tinha receio de que eu acharia estranho ele pegar na minha mão.
    Respondi que eu não achava aquilo estranho, mas sim o fato dele achar que eu acharia estranho. 
    Sente-se como se demonstrações de carinho não fossem permitidas ali. Como se as partes do meu corpo comumente cobertas por roupas fossem menos pessoais do que minhas mãos. Como se ele ter pegado na minha mão expressasse um romantismo que pudesse assustar. Como se isso aquilo fosse uma declaração de amor, e como se gays fossem indignos disso. 
São tantas coisas para tirar dali...

domingo, 17 de janeiro de 2016

Quem sou eu e o que eu quero da vida?

Este texto discorre sobre como perdemos nosso senso de identidade 
e também fala dos traumas emocionais que gays carregam consigo 
durante a vida adulta depois de terem saído do armário, 
com algumas dicas para uma vida mais positiva.

“Você se lembra a primeira vez em que soube que era gay? Talvez você se imaginou conhecendo um homem bonito, se apaixonando perdidamente por ele e vivendo a vida juntos com alguns cachorros, ou até com filhos. Em algum ponto da sua vida, esse sonho morreu.” The Velvet Rage, Alan Downs 2004.
    

    Existe um fenômeno interessante que acontece com homens gays que nos faz querer ser o melhor que pudermos. À primeira vista esse fenômeno parece ser algo geral dos humanos, afinal, quem não quer ser o melhor? A diferença é que nós, gays, colocamos tempo e esforço desproporcional se comparados com nossas contrapartes héteros.
Alguns autores escreveram[1] sobre essa supercompensação, e ela faz muito sentido. Já que não temos a garantia de validação[2] vinda das nossas famílias, amigos ou de deus, investimos nosso senso de valor próprio em áreas em que o sucesso possa vir com mais certeza se nos esforçarmos mais (e muito), a saber: vida acadêmica, vida profissional e nossa aparência.
    Tentei tirar a prova. Eu olho ao meu redor e os gays que conheço são todos excepcionais em suas áreas. Excepcionais mesmo, daqueles que excedem todas as expectativas e estão muito acima da média. É um fenômeno tão geral que até a bicha poc poc cabeleireira do bairro se destaca com sua expressão criativa, domina a expressão feminina às vezes melhor do que mulheres, esbanja conhecimento como guru da moda enquanto as senhorinhas do bairro fazem fila por um espaço na sua agenda para fazer o cabelo com ela. Cada um se destaca de acordo com seu meio, numa taxa maior que a dos héteros.
    Em linhas gerais, nós nos destacamos melhor que os héteros, temos mais dinheiro para gastar conosco, mais cuidado com nossos corpos, somos mais expressivos em áreas criativas e ainda temos mais parceiros sexuais do que qualquer outro grupo demográfico. Apesar disso tudo em nosso favor, muitos de nós não sentimos satisfação com a própria vida, apresentamos altos índices de depressão e suicídio, e isso pode nos levar ao seguinte questionamento: será que, mesmo sendo o melhor que eu puder, o simples fato de eu ser gay é uma maldição que me impede de viver uma vida minimamente realizadora?
    
    Um Senhor Anônimo diz: “Mas Henrique! Isso deve ser só para aqueles gays de armário, tipo você até uns meses atrás. Se eles não se aceitam suas sexualidades e vivem se escondendo, eles não vão se sentir realizados como pessoa mesmo, não importa o quão bons sejam em qualquer aspecto das suas vidas, pois eles estarão vivendo uma mentira.”
Pois é, senhor anônimo, tens razão. Quem está no armário certamente não deve se sentir realizado, mas por que será que tantos de nós que já estão fora do armário e aceitam suas sexualidades ainda se sentem tão miseráveis e depressivos?
    Eu estou em paz com minha sexualidade já há muito tempo e saí do armário para minha mãe e irmã no ano passado. Independente de como me sinto hoje sobre ser gay, eu não saí ileso psicologicamente daquele período sombrio de armário. Dificilmente alguém sai ileso. Hoje a pessoa que sou apresenta muitas cicatrizes emocionais e algumas feridas ainda abertas que anos de tortura emocional cravaram profundamente no meu ser. Eu vivi por muitos anos achando que existia algo fundamentalmente errado comigo, me escondendo, me odiando, e achando que eu não era digno de receber amor. Esse constante estresse psicológico forjou vários traços da minha personalidade e me incentivou a cultivar comportamentos que persistem mesmo depois de eu ter saído do armário, como se fosse uma rotina, como se fosse uma coisa mecânica, como se fosse a única coisa que eu sei fazer para me proteger e me trazer um mínimo de satisfação com a vida. Se você se identifica com essa angústia, nosso problema hoje não é mais nos aceitar ou nos convencer de que ser gay é okay, mas sim lidar com as feridas emocionais que nossos anos de juventude nos trouxeram.
    Talvez eu preciso de terapia mas convenhamos, terapia é um luxo que está fora das minhas possibilidades e de muitos outros brasileiros. Enquanto isso, vou tentando tapar os buracos como posso. O mais recente tapa buraco foi o livro de auto ajuda para gays (The Velvet Rage, 2004) que recomendei aqui no blog, e que me fez reconhecer como somos um grupo sofrido e traumatizado (que novidade!). Nossos traumas, se não forem reconhecidos e tratados, podem persistir por décadas nos evitando de progredir na vida com nossos vícios comportamentais como abuso de substâncias, alcoolismo, obsessões irrealistas, agressividade, vício em sexo, sexo com anônimo e com estranhos, dificuldade de manter relacionamentos, entre outros.

    É uma sensação muito engraçada poder se identificar com aquelas situações desesperadoras relatadas no livro, olhar pra traz e perceber o quanto você sofreu. Desde criança, ainda sem saber nada do mundo, nós sofremos e nem percebemos. Ainda crianças, sem ter tido a chance de ter uma noção de quem somos, sabíamos apenas que tínhamos algo de diferente dos outros meninos e que precisávamos esconder nosso segredo. Desde criança já tínhamos que lidar com a ansiedade de que nosso segredo fosse descoberto. Às vezes até nos distanciamos das outras crianças porque elas têm um faro aguçado para apontar diferenças, e crianças podem ser muito cruéis com quem é diferente. Sofremos sem saber, e não podíamos pedir ajuda pois nem sabíamos como.
Para tentar lidar com essa pressão, esconder nosso segredo e compensar pelo nosso defeito, fugimos de nós mesmos e nos tornamos quem os outros quisessem que fôssemos. Nos tornamos uma pessoa que não seríamos necessariamente caso tivéssemos um senso do verdadeiro ‘eu’. “O que você quer que eu seja? Um estudante exemplar? Um exímio jogador de vôlei? Um nadador olímpico? Um engenheiro, médico ou advogado? Eu serei o que você quiser que eu seja.”
    Procurando satisfazer as expectativas dos outros sobre nós, perdemos o nosso senso de identidade e passamos a construir uma fachada de perfeição para proteger a verdade que existe no seu interior. Na verdade, nem tivemos a chance de desenvolver um senso de identidade, um eu autêntico, e portanto soa estranho dizer que perdemos esse senso. Afinal, não podemos perder o que nunca tivemos.
    Assim, o eu inautêntico toma forma e passamos a investir cada vez mais em manter essa fachada perfeita para desviar a atenção do segredo que guardamos e, caso ele venha a vazar, usamos a perfeição como uma maneira de compensar pelo nosso defeito. Construímos essa fachada com as melhores roupas, as melhores notas na escola, o melhor carro, o penteado mais perfeito e atual que já existiu, as melhores fotos do Instagram, o gosto em música mais requintado e exótico, a casa melhor decorada, o corpo com músculos mais trincados, os mais belos e mais numerosos amantes, os hobbies e coleções mais incomuns, uma dedicação desproporcional à carreira, uma namorada ou esposa para disfarce com quem quase não fazemos sexo, uma grande dedicação à espiritualidade, etc etc. Cada um de nós encontra a sua obsessão para investir exaustivamente à perfeição.
    A busca pela fachada perfeita tem um custo, e passamos a nos cobrar demais. Eu, por exemplo, recorrentemente tenho pensamentos que me fazem me sentir um completo fracasso. Eu sou bem educado, ético, formado em engenharia elétrica, moro em Nova York, não sou tão feio, tenho dentes bons, sou independente e no momento tenho tudo o que quero materialmente. Por que, mesmo assim, esses pensamentos insistem em se passar pela minha cabeça? Pois é, é absurdo, mas surpreendentemente comum com homens gays.
    
    Esse papo parece meio exotérico mas, para acharmos alguma satisfação na vida, temos que encontrar nosso eu verdadeiro. Temos que parar de procurar validações sobre nosso eu inautêntico e achar nosso eu autentico. Para muitos héteros, o desenvolvimento do ‘eu’ verdadeiro ocorre naturalmente, pois eles são validados e encorajados quando falam de garotas, ou quando levam suas parceiras em encontros e começam um namoro. Isso os ajuda a ter uma ideia consolidada de quem eles realmente são, pois eles encontram validação autêntica cedo, sabem como isso sente e podem descobrir validação autêntica em outros aspectos de suas vidas. Nós, por outro lado, não temos ideia de quem somos, pois passamos a vida procurando nos apresentar de uma forma inautêntica e não aprendemos a identificar quando somos validados autenticamente.
    Depois de alguns anos recebendo validações inautênticas, em algum estágio das nossas vidas paramos, refletimos e concluímos que não nos conhecemos. No meu caso, o sexo casual e anônimo dopou a minha necessidade de validação autêntica por alguns anos, e quando nossos comportamentos não nos trazem mais realização, nos sentimos apáticos com tudo e sem motivação. Nesse estágio, somos levados a nos perguntar: “Será que a vida é só isso e não tem mais nada para me oferecer? O que pode me trazer satisfação com a vida?”
    
    A parte mais dura para mim no livro todo foi descobrir que sexo anônimo é uma forma de eu procurar validação de estranhos. Com eles, eu posso me apresentar com o personagem que for, posso ser o que eles esperam que eu seja, novamente afetando meu senso de identidade. Antigamente, por eu ser alguém procurando validação e por eu acreditar ter um defeito que me faz ser indigno de ser amado, eu me cerquei de homens para me convencer de que eu sou amável. Afinal, se homens me desejam, eu devo ser minimamente digno de amor, e esta é a maior ferida psicológica que eu trouxe dos meus anos de armário. Hoje, o comportamento continua por inércia e não me satisfaz.

“Meu ex – que Deus o tenha – era viciado nisso. 
Todas as noites ele se dirigia até esse famoso banheiro de 
beira de estrada, levava algumas garrafas de vinho com 
ele e lá ele ficava pela noite toda, transando ou procurando 
por sexo. Ele era obcecado com caras masculinos, 
trabalhadores da estrada. Ele é o epitoma de uma alma 
torturada, afogando suas mágoas com álcool. Sexo 
casual sem fim, fingindo estar procurando pelo cara 
impossivelmente perfeito para preencher seu gigante vazio emocional."
In the Age of Grindr, Cruising and Anonymous Sex Are Alive and Well
Disponível aqui.
Vice, 07 Jan  2016

Nos meus encontros, eu escolho não me mostrar como Henrique, com todos os meus vícios e minhas vulnerabilidades, pois não sei lidar com invalidação e a vergonha que isso traz. Eu não sei me relacionar, não sei expor meus defeitos e nem aceitar o dos outros. Pelo curto período do encontro e pelas poucas palavras trocadas, também projeto minhas fantasias e expectativas sobre meu parceiro, por mais irrealistas que sejam. Homens gays geralmente não sabem lidar com essa vergonha de serem invalidados por quem realmente são, e por isso pulam de galho em galho, constroem e destroem amizades, mudam de cidade, de emprego, de parceiro ao menor sinal de invalidação, buscando sempre o que lhes façam se sentir melhor.
    
    Em algumas vezes no meu blog antigo mencionei sobre a angústia de viver duas vidas e como isso me frustrava, e parece que esse fenômeno é bem comum com gays mesmo. Claro que eu tinha ideia que fosse mesmo comum, mas ler isso de um psicoterapeuta ajuda a dar mais crédito à ideia. O autor chama esse fenômeno de levar duas vidas de splitting (em inglês significa divisão), e pode ocorrer com héteros também quando, por exemplo, eles mantém um caso extraconjugal. Passamos a esconder uma boa parte das nossas vidas que julgamos não esperamos que seja validada por nossas famílias e amigos, e apresentamos uma vida que pode ser validada por trás da fachada de perfeição, prejudicando ainda mais nosso senso de identidade. Procuramos nossos parceiros o mais discreto possível, evitamos trocar telefone, evitamos dar qualquer informação que possa dar alguma dica a eles sobre quem realmente somos e diminuir as chances de que as vidas se encontrem, enquanto para nossa vida social passamos a mentir sobre o que estamos fazendo, com quem estamos, e assim viramos mestres da mentira. Mesmo depois de sair do armário esse comportamento pode continuar.
    Também, muitos homens gays que não se sentem satisfeitos com as validações do seu eu inautêntico se veem sem esperança com o futuro. Não se imaginam mais cultivando uma carreira, não se imaginam formando uma família, e às vezes nem se imaginam envelhecendo. Por terem dificuldade, ou repulsa de envelhecer, alguns, mergulhados em depressão, se veem consumidos por comportamentos auto destrutivos como abuso de substâncias e sexo desprotegido. Quando a pessoa não tem esperança de viver até a velhice, HIV ou overdoses não fazem tanta diferença. A obsessão com o imediatismo e a juventude leva homens gays a se dedicarem demais aos seus corpos e evitarem a todo custo envelhecer, passando horas na academia, gastando fortunas com plásticas e contando cada caloria ingerida. Nas suas lógicas, se seus corpos não lhes trouxerem sexo com os carinhas de 20 ou 30 anos, a vida não terá mais sentido.

    Para encontrarmos alguma realização na vida, precisamos apresentar ao mundo quem realmente somos, sem a fachada. E meu amigo, não é fácil e às vezes nem temos a capacidade para fazer isso durante nossas vidas. Encontrar autenticidade pode envolver términos de relacionamentos, de amizades e de carreiras. Eu me analiso e penso se ser engenheiro eletricista é algo que me traz satisfação e tenho medo da resposta.
    A ideia de que precisamos mudar nossos comportamentos é o primeiro passo, mas ela por si só não traz mudança. Mudança e descobrimento do eu autêntico ocorrem através de pequenas ações conscientes no dia a dia, e não com uma decisão de virar a vida em 180º de repente, ou mudar de cidade, ou mudar de emprego. No livro existem algumas dicas sobre como praticar autenticidade, mas para não estender este texto demais, vou apenas mencionar as que eu achei mais importantes. São elas. 

 1 – Suas ações devem refletir o homem que você quer se tornar.
“Okay, mas quem é o homem que eu quero me tornar?” Não sei, eu também estou desenvolvendo a ideia do homem que quero ser. De qualquer forma, antes das suas pequenas decisões diárias, suas ações devem estar em conformidade com seus valores e o homem que você se tornaria ficaria satisfeito com a sua decisão.

2 – Satisfação própria deve ser priorizada sobre aprovação de terceiros
Escolha atividades que te tragam mais satisfação consigo mesmo ao invés das que são focadas em obter validação dos outros.

3 – Aceite a realidade como ela é
Se as coisas não saíram do teu jeito, pare de insistir que saiam. O autor cita um salmo muito legal que diz “Deus, dá-me serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar, coragem para mudar as que posso, e sabedoria para ver a diferença”. (Recitado frequentemente em reuniões dos alcoólicos anônimos)

4 – Uma coisa, uma pessoa, uma conversa de cada vez
Esteja presente em sua total consciência nas atividades do seu dia a dia, seja uma refeição, uma leitura, ou uma conversa. Ao estar presente, você terá a capacidade de sentir os pequenos sentimentos de satisfação que algumas atividades podem te trazer, e assim descobrir mais sobre seu eu autêntico.

5 – Sempre que possível, tente não julgar
É auto explanatória, né? Como diz o marreco da sabedoria, “não julguei-des paras não serdes julgado”. Se as pessoas percebem você como uma bicha cínica cheia de julgamentos com uma a língua afiada, a mensagem que você passa é que você é perigoso de manter perto demais e ninguém vai querer ser seu amigo. Quem toma a posição de julgar e condenar os defeitos dos outros, geralmente são os que mais julgam a si próprios, se torturando com seu próprio julgamento. Quanto mais cínico você é com outros, é mais difícil para você revelar seu eu verdadeiro ao mundo. Afinal, como você pode ser imperfeito se você não tolera defeitos nos outros?

6 – Pensamentos negativos geram pensamentos negativos
Se você se ver afundando em depressão, ou ansiedade ou qualquer sentimento negativo, tente tirar sua mente do que te trouxe esse sentimento. Ligue para um amigo e converse sobre a vida dele, leia um quadrinho ou veja um episódio de alguma comédia, mas não fique preso ao sentimento negativo.

7 – Respeite seu corpo
Seu corpo é sagrado, é sua única verdadeira posse, então trate-o como tal. Aceite como ele é hoje e não como ele será no futuro, independente das plásticas ou metas de peso e músculos. Não atente contra sua integridade física. A não aceitação do seu corpo é um reflexo da sua incapacidade de ser autêntico.

8 – Nenhum sentimento dura para sempre
Quando você estiver deprimido, com medo, angústia ou muita ansiedade, lembre-se que nenhum sentimento é eterno. Suicídio é uma solução permanente para um problema temporário. Tudo passa.

9 – Não deixe que seu gosto sexual seja um filtro para você conhecer pessoas
Tanto porque o exterior não tem nada a ver com o que a pessoa é por dentro, né? Essa dica é auto explanatória, mas nós ficaríamos surpresos em perceber como nós nos fechamos às pessoas que não satisfazem nossos gostos sexuais, especialmente quando estamos conhecendo pessoas novas.

10 – Sempre procure pela inocência nos outros
Isso traz paz, tanto nas relações pessoais quanto em relacionamentos amorosos. Se a pessoa age de forma que te machucou, assuma que ela tem um bom motivo para agir assim. As chances de alguém querer machucar outrem, conscientemente e deliberadamente, são mínimas. Quando alguém nos machuca, é porque ela mesmo está machucada, então sejamos fortes pelos dois.

11 – Viva em integridade
É a minha dica favorita.
Tente ser sempre o mais honesto que você possa ser, mesmo que pareça ser mais fácil esconder a verdade. Casais que mantém segredos entre si começam a se distanciar, lenta e imperceptivelmente, e dificilmente terminam juntos. Manter segredos alimenta seu cinismo e destrói a confiança que você tem em si mesmo, no seu relacionamento e no seu parceiro. “Se eu mantenho esse segredo, imagina o que ele mantém escondido de mim! Se eu mesmo sou capaz de mentir e trair, com certeza outros são também.”
Não somente em relacionamentos, mas viver em integridade também significa ser único, sem mais “splitting”, sem duas vidas. As nossas ações e pensamentos devem refletir nossos valores, e não deveríamos ter vergonha de comentar sobre isso com as pessoas dos nossos círculos quando nossas ações estão em concordância com nossos valores. Não precisamos cultivar duas vidas separadas, uma em que sou livre para ser gay e outra em que é aceitável apresentar para os outros me validarem. Nossos esforços têm de ser no sentido de unir as duas vidas que temos, para que sejamos íntegros e autênticos.

    Eu gostaria de saber mais sobre assuntos psicológicos para poder falar com mais propriedade e clareza sobre nossos traumas. O que apresentei nesse texto foi muito do que aprendi baseado na leitura de “The Velvet Rage”. Se vocês decidirem ler o livro, espero que ele contribua para vocês o tanto que contribuiu comigo para me tornar uma pessoa melhor e mais consciente de mim e dos meus problemas.  
Um grande abç,
Henrique.
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[1] - Um texto muito legal sobre o "melhor rapazinho do mundo" que os gays querem ser desde crianças. Disponível aqui.
[2] - Validação é uma das formas de como comunicamos aceitação sobre nós e sobre outros. Detalhes aqui.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Recomendação de leitura


    Eu não tenho o hábito da leitura. Confesso que o último livro que eu li, Lucíola de José de Alencar, foi há quase 10 anos, e apenas porque era um requisito para fazer vestibular. Reconheço que gostei da história, me emocionei e chorei como uma criança no final, mas depois disso, limitei-me à leitura de revistas e jornais e nunca mais livros fizeram parte da minha vida.
    Muito para minha surpresa, minutos atrás eu estava terminando a leitura de um livro que eu consumi vorazmente pelas últimas duas semanas, recomendado por um amigo depois de ter lido meu último texto no blog. (Obrigado, Rodrigo)
    A indicação não poderia ter sido mais apropriada. Me li inteiramente no livro, e aprendi mais sobre mim nessas últimas duas semanas do que em muitos anos de estagnação psicológica. O livro se chama "The Velvet Rage: overcoming the pain of growing up gay in a straight man's world", de Alan Downs e publicado em 2005.
    Downs é um psicólogo e gay. Hoje com 54 anos de idade, ele é HIV positivo desde os 26. No livro ele descreve alguns comportamentos autodestrutivos comuns entre gays, explora suas causas e como o cultivo de pequenas habilidades podem nos levar a uma vida realizadora. As histórias de seus clientes ilustram algumas análises objetivas sobre conflitos comuns na vida dos homens gays, o que torna uma leitura menos técnica e mais humana.
    Recomendo fortemente para os senhores que estejam lidando com falta de realização na vida, desesperança e incapacidade de manter relacionamentos. Ainda estou digerindo toda a informação que recebi, e espero em breve escrever sobre minhas conclusões e aprendizados.
    Para quem for ler, ou já leu, fica o convite para discutirmos o livro nos próximos textos, e sintam-se à vontade para indicar leituras que vocês julgarem impactantes!
Um grande abç,
Henrique.
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