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segunda-feira, 28 de março de 2016

Cura gay: eu fui

Não me orgulho, mas já fui hétero. Sim, durante 21 anos da minha vida, vivi no submundo da heterossexualidade, falando palavras como “top”, “show” e “brodagem”, criticando a sexualidade alheia para reforçar minha frágil identidade. Porém, depois de dois namoros e muitas desilusões, percebi que a vida poderia ser mais do que um jogo de reafirmações sociais, eu poderia ser feliz, mas esse não foi um processo fácil – e acredito que nunca é. Nas palavras de Paulo Leminski: Isso de querer ser/exatamente aquilo que se é/ainda vai nos levar/além. E levou...

Minha história não é muito diferente da maioria dos gays da nossa geração: Família religiosa, pressões sociais e medos, muitos medos. Não consigo dizer se me tornei gay ou se dei vazão a esses sentimentos já velho, mas posso afirmar que realmente amava minha segunda namorada, algo muito particular e único. Mesmo não preenchendo todo o cheklist da heteronormatividade, segundo meus amigos, “não dou pinta”, o que tornou minha vida “mais fácil”. Para além dos preconceitos contidos nessas afirmações, foi uma época muito dolorida, principalmente no início dos meus vinte e um anos.

Depois que me separei de Luiza (nome fake, assim como o meu) e me descobri gay – essa história é longa, fica para o próximo post -, eu perdi o norte da minha vida. Nessa época eu era quase um fundamentalista cristão, acreditava em cada palavra da Bíblia, numa interpretação ao pé da letra e, então, me descobri sendo, segundo a interpretação de alguns, abominação. Lembro que eu chorava madrugadas à dentro, com a Bíblia aberta, pedindo libertação de um desejo a um divino que parecia não me escutar. Fazia votos com Deus de nunca fazer sexo com homens e quando batia punheta pensando em sexo gay, me castigava fisicamente, sofrendo para aplacar a raiva que sentia de mim mesmo e dos meus desejos. A dor de ser aquilo que se odeia não cabe em palavras para esse texto, mas eu entendo cada suicídio (não) noticiado de jovens gays: Eu sou um pouco deles, ou, melhor, todos os gays são um pouco deles, de certa forma...



Lá pelas tantas, na minha angústia existencial, encontrei um grupo chamado G.A (grupo de amigos), que afirmava que a cura gay era possível a partir de terapias em grupos, confissões e muita repressão, sexual e sentimental. Segundo eles, a homossexualidade poderia ser causada tanto pela obsessões de espíritos demoníacos quanto por problemas familiares e abusos sexuais. Eu sei, soa cômico como eles reduzem a multiplicidade da sexualidade humana em atravessamentos negativos, mas na época era minha tabua de salvação. Encaixei problemas nas explicações deles e acreditei que minha sexualidade era uma doença a ser curada. Não foi. Quase quatro anos depois, sobrevivi para contar as atrocidades e os abusos cometidos por um grupo de pessoas que, não satisfeitas com a sua sexualidade, vivem em função de reprimir as alheias.

Tentei, mas não consegui relatar ponto a ponto o que passei durante esse período no G.A. Não me lembro o tempo exatamente, acredito que um ano, mas deixou feridas na minha vida que curo a cada dia, com muito amor. Hoje, assumido pro pessoal do futebol, do boxe, família e, principalmente, para Deus, vivo uma vida única, sem medo ou vergonha de ser quem eu sou e isso ninguém pode tirar de mim, não mais.

Não existe cura porquê não é doença, nem na medicina nem para Deus – não importando qual deles. Nenhuma religião aborda a homossexualidade como castigo ou pecado, acredite, , eu pesquisei incansavelmente todos os textos que eles usam para atacar a homossexualidade e todos são lidos tendenciosamente, gritados aos quatro cantos para pessoas de coração duro e cérebro mole.

Eu, depois de tudo, me tornei budista, mas nunca abandonei minha vertente cristã. Respeito de todo coração sua religião ou ausência dela, mas gostaria de destacar um versículo Bíblico único que eles não costumam abordar muito, até porquê, vai contra tudo que eles dizem:


Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas; Atos 10:34

7 comentários:

  1. Religiões X Homossexualidade.

    Religião, para mim, deveria ser sinônimo de amor. Amar o próximo, independente de suas opções/condições/vontades. Mas não, sempre justificam dizendo que na Bíblia é isso ou aquilo, sempre dão um jeito de enfiar a religião e de reverter o verdadeiro significado, julgando que aquilo é pecado.
    Tenho pena das pessoas que não enxergam o verdadeiro significado de um religião: perpetuar, ensinar e proclamar a boa nova. Mas acabam usando-a como justificativa de seus preconceito pois não sabem lidar com o "mundo real"

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    1. Pois é, e já a utilizaram para fazer tantas atrocidades no mundo... A cura gay é mais uma delas. Eu sobrevivi para escrever o texto, mas penso em quantas pessoas não sobreviveram...

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  2. Esse negócio de cura gay é bastante parecido com o nazismo. Do amor entre homens nasceu muita coisa bacana para a cultura e evolução da humanidade, inclusive o computador, vovô de toda a informática de hoje. Você arrazou na sua narrativa. Fiquei com muito interesse em saber o que você tem pra contar, prometendo para um outro post, da fase em que se descobriu e se separou. Quanto à Bíblia, tb há erros de tradução, do hebraico para o grego, por exemplo, que mudam o sentido do texto e nos quais a ignorância se agarra para atacar homossexuais.

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    1. Oi Anônimo,

      Concordo com você, não há o que se curar, não há doença! Ser homossexual é apenas um fator do incrível espectro que nós somos (filhos, pais, trabalhadores, voluntarios, amantes de livros e etc).

      Não sei se consegui, mas não queria discutir a Biblia ou as religiões na postagem, mas sim a cura gay e os efeitos horrendos que ela fez.

      Grande beijo!

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  3. Minha historia é um pouco diferente, mas também passei por essa de se ver gay e ao mesmo tempo crer que homossexualismo é algo abominavel.
    Hoje ja troquei o ismo por idade, e graças a inércia que criei para me impedir de fazer coisas inuteis, tô ai me caçando no mundo. Ainda.

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    1. Oi Douglas,
      que bom que nós sempre evoluimos, né? Sempre olho pra mim, com vinteepoucosanos e me machucando por bater uma punheta pensando em caras e hoje... namorando, vivendo algo incrível a dois...

      Estamos juntos nos caçando no mundo, encontrando nosso espaço para, no final, entregarmos as armas e dizermos: fui o mais honesto que pude;comigo mesmo e com o mundo!

      Grande beijo!

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  4. foi um belo relato, é a verdade pela qual muitos passam, um grande abraço!

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