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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Amor automático e desenvolvido

O universo não gosta de lugares vazios e 
tende a preenchê-los. Você só precisa estar aberto 
e aceitar que ele preencha. 


Caríssimos, 
você conhece alguma pessoa gay que esteja deprimido e sem perspectiva de futuro? Talvez essa pessoa inclusive seja você mesmo, o que não seria uma surpresa. A prevalência de depressão entre homens gays é três vezes maior do que na população em geral. Além de vários outros fatores, nosso cérebro foi pesadamente castigado por um nível de estresse nos nossos anos de desenvolvimento físico e intelectual que podem ter efeitos vitalícios. Esses motivos incluem:
1 - lidar com a vergonha de ser gay idade muito jovem;
2 - lidar com o mundo e problemas sem ter a quem recorrer para não revelar nosso segredo;
3- estar em alerta o tempo todo com medo de ser descoberto.
    Já li alguns textos que diziam que os cérebros de pessoas gays são quimicamente parecidos com os de soldados que retornam de zonas de guerra e que apresentam transtorno pós-traumático (fico devendo a fonte). 
Eu, por exemplo, estou tentando o meu 3o antidepressivo por motivos que logo ficarão claros, mas hoje me considero uma pessoa muito mais equilibrada do que já fui. Pensamentos suicidas já não fazem parte do meu cotidiano e consigo enxergar uma vida 10 ou 20 anos daqui para a frente (apesar de um teste no site Facebook disse que eu morrerei aos 43 anos).
    Também olho ao meu redor e constato que a grande maioria dos meus amigos e contatos gays lidam com depressão e ansiedade. Alguns não procuram tratamento porque consideram algo fora do orçamento, e convenhamos, é realmente caro. Os que podem estão em terapia, ou gostariam de fazer. Somos realmente um grupo muito traumatizado, e ao mesmo tempo em que somos bem-sucedidos profissionalmente ou academicamente, afundamos em aspectos emocionais das nossas vidas. Isso não se limita aos gays da minha faixa de idade, mas percebo também com os mais jovens, da pequenez dos seus 20 e poucos anos. É de partir o coração que tanta gente jovem, talentosa e bonita esteja tão desiludida com a vida. 


    A ideia de que eu não era digno de ser amado me botou pra baixo por muito tempo. Eu não conseguia entender como alguém poderia ver alguma coisa em mim que a interessasse, e eu acabava evitando desenvolver qualquer tipo de relacionamento que não fosse estritamente sexual, até que percebi que a raiz do problema ainda estava no fato de eu ter vergonha de ser gay. 
    Tenho aprendido a lidar com isso, e desde então minha vida emocional tem sido muito melhor. Tenho aprendido a amar e aceitar o amor de outro. Aprendi que para amar e ser amado, é preciso estar aberto a aceitar o amor dos outros. E posso estar a ponto de descobrir algo mais interessante ainda: existe mais de um tipo de amor.
    Como eu havia descrito no meu texto anterior, o amor que eu senti pelo meu ex foi espontâneo, imediato, quase automático. Eu me assustei como alguém podia se encaixar tão bem ao meu coração. Nós nos entendíamos bem, e a intensidade desse relacionamento me deixa com certo medo sobre o futuro: será eu algum dia sentirei algo tão intenso e automático como senti por ele? Na primeira semana em que nos conhecemos, eu já sabia que eu estava apaixonado. Quais as chances disso se repetir? Até alguns dias atrás, eu pensava nele o tempo todo se eu não me focasse em outra coisa. Isso estava me fazendo questionar minha sanidade, pois sentia-se como se fosse uma verdadeira obsessão.
    Estou aterrorizado de isso se tornar mais um trauma na minha longa lista, especialmente porque ele entrou em contato comigo depois de mais de dois meses sem nos falarmos. Ele disse que está conhecendo um novo homem e que ele gostaria de entrar em contato comigo para ter "referências" de que meu ex é uma pessoa boa. Demorei a entender como alguém pode pedir referências do atual namorado para um ex, e não entendi. O relacionamento deles nem começou e já demonstra sinais de ser abusivo. De qualquer forma, pedir o ex pra conversar com atual pode entrar no livro dos recordes de coisas mais babacas que alguém pode fazer. Quando li aquelas mensagens, eu cheguei perto de desmaiar, fiquei sem comer por quase uma semana, perdi peso, foi terrível. Me assustou como uma pessoa em quem eu confiei minha vulnerabilidade e que sempre soube que eu ainda o amava pudesse ser tão desconsiderado com meus sentimentos. E me magoa mais ainda saber que ele pôde seguir em frente tão rapidamente, e isso me leva a pensar na possibilidade que ele não se sentiu tão conectado a mim quanto eu me senti a ele. 
    Meu orgulho gigantesco às vezes funciona em meu favor e às vezes contra. Dessa vez ele me ajudou, pois não me submeti a esse abuso; o xinguei e rompi relações. Estou determinado a superá-lo e aberto a sentir aquilo de novo. Como diz o ditado, "não existe rico que nunca perdeu dinheiro, e nem alguém que já amou e nunca teve o coração partido". 


    De alguns livros de autoajuda que tenho lido, um diz que se você realmente estiver aberto a aceitar que o universo o preencha com riquezas ou pessoas, o universo o fará. Desde que decidi esquecer o ex, tenho sido mais determinado em liberar a vaga que ele uma vez ocupou em meu coração e deixá-la aberta para novos amores. No momento estou conhecendo um rapaz (novinho, 21 anos) que tem várias características que eu aprovo: é comunicativo, alto astral, dança bem, trabalhador, inteligente, liberal, um fofo, um amorzinho, e em muitos desses aspectos ele é o oposto do ex.
    No começo eu estava com o pé atrás: eu quis sentir aquilo que senti com o ex tão imediatamente quanto havia ocorrido. Achei que estava demorando sentir aquele sentimento incontrolável, fiquei com medo de estar investindo em uma relação falida desde o começo. Esse aspecto automático com o ex se aproximou muito daquela ideia de amor romântico, effortless, e reforçando o que disse anteriormente, fico com medo de esperar sentir isso para todos os meus futuros relacionamentos.
    Seria bom se o sentimento viesse automático, mas nossas vidas não são ideais e precisamos aceitar a inevitabilidade de que coisas que são construídas com trabalho e dedicação são mais duradouras. Será que é possível aprender a amar? 
    Eu admiro esse novo rapaz em tantos aspectos que se fosse possível escolher a quem amar, o ex ou o atual, eu certamente escolheria o atual. Eu gosto de passar tempo com ele, eu adoro vê-lo dançar, ele me hipnotiza. Eu tenho desenvolvido sentimentos por ele, mas a comparação com aquele sentimento que senti com o ex tem me atormentado bastante.
    Por outro lado, também se eu pudesse escolher, eu não escolheria esquecer o que senti pelo ex. Foi um sentimento bom, foram momentos bons, e o mais importante, ele me fez perceber que eu sou capaz de amar e sou digno de amor também (mesmo que a intensidade não tenha sido recíproca). 
    O que me resta é buscar a resposta da dualidade: a dedicação que temos às pessoas vem do amor que sentimos por elas, ou o amor pode surgir da dedicação? Eu vou me dedicar ao meu novo crush, eu quero desenvolver algo saudável e forte com ele, e eu espero não estar fazendo isso como uma forma subconsciente de me anestesiar da dor que é lidar com um coração partido, porque ele merece tudo de bom e nada de ruim. Eu sofro com um coração partido, e a última coisa que eu gostaria de fazer é partir o coração de alguém, e eu espero que minha dedicação se materialize em sentimentos, e eu espero fazê-lo feliz. 
    Também espero que ele nunca leia esse texto.
Também espero que esse blog não vire um querido diário de aventuras amorosas de um ex caso de armário. Minha ideologia niilista me faz sentir como se eu não tivesse muito o que falar, e que ultimamente só tenho conseguido falar de pormenores de vida pessoal.
Enfim,
vocês acham que amor acontece ou se desenvolve? Ou existe os dois? Vocês já conseguiram desenvolver amor por alguém através de dedicação?
Um grande abraço,
Henrique. 
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